Por Gustavo Martins-Coelho


Nas duas últimas semanas, já vimos que o SNS não pontua muito bem tanto no tempo de espera [1] como no respeito pela autonomia do doente [2].

Hoje e na próxima semana, veremos como se sai na realização propriamente dita duma cirurgia simples: drenar um terçolho.

Recebi uma carta em casa, dizendo para me apresentar no dia tantos às oito horas, após, pelo menos, seis horas de jejum. O primeiro problema está no realismo desta recomendação: a não ser para as pessoas que têm por hábito fazer uma merendazinha às duas da manhã, aparecer no hospital às oito, após um mínimo de seis horas de jejum, significa muito mais horas efectivas de jejum. Eu percebo que seis seja o mínimo clinicamente recomendável e, por isso, seja esse o período que é recomendado. Mas este é um dos problemas da medicina: por vezes, esquece o mundo real. É como o descodificador de rótulos da DGS, de que já falei aqui [3], que, apesar de ser uma boa ideia, na prática, pouco menos é que inútil.

Mas pronto, o período de jejum de seis horas estendido na prática a oito ou dez é o menor dos males. Bastante pior é chegar ao hospital ainda antes das oito e não ter sinalização adequada para perceber como chegar ao centro de cirurgia de ambulatório. É aqui que os doentes crónicos entram em vantagem: já conhecem os cantos à casa e orientam-se. Mas como a casa deveria ser igualmente acessível a todos, temos um problema.

Lá consegui chegar ao centro de cirurgia de ambulatório, marquei a minha presença e fui para a sala de espera, de onde só fui chamado perto do meio-dia e meia. No meu tempo de faculdade, havia três turnos de consulta, no hospital onde estudei: o das oito, o das onze e o das duas. Os serviços mandavam vir os doentes aos magotes a uma destas três horas — oito, onze ou duas da tarde — e os médicos chamavam-nos por ordem de chegada. Ou seja, o último doente a chegar às oito da manhã era atendido perto das onze; o último doente a chegar às onze era atendido perto das duas da tarde (e nem ia almoçar entretanto, com medo de chegar a sua vez e não estar na sala de espera); e o último doente a chegar às duas era atendido quando calhasse: frequentemente, a coisa atrasava, os doentes transbordavam do turno anterior para o seguinte e os últimos doentes eram atendidos lá para as seis. Até que alguém concluiu que cada consulta durava, em média — digamos, vinte minutos, porque varia de especialidade para especialidade — e era portanto possível marcar as consultas a cada vinte minutos — e assim se passou a fazer, para conforto dos doentes. Claro que, de vez em quando, a consulta das nove atrasa e o doente das nove e vinte tem de esperar até às dez. Mas uma coisa é esperar quarenta minutos ou uma hora; outra é chegar às oito e ser atendido às onze… Além de que o contrário também sucede, ocasionalmente: uma consulta termina mais cedo, ou um doente falta e, se já lá estiver o seguinte, é chamado de imediato. Entre consultas que atrasam e consultas que adiantam, o universo lá encontra o seu equilíbrio cósmico e a coisa vai funcionando…

Aparentemente, contudo, esta assaz brilhante inovação não chegou ainda aos blocos operatórios. Com a desculpa que nunca se sabe quanto uma cirurgia vai durar, continua-se a convocar os doentes todos para o início do turno do cirurgião e a chamá-los por uma ordem que faz sentido clínico, mas nem sempre é inteligível para quem está à espera.

Senhores cirurgiões e demais profissionais do bloco operatório, uma média é uma média, em qualquer ramo de actividade; e, em qualquer ramo de actividade, apontar para a média é uma boa forma de gerir a coisa. A duração duma cirurgia não é excepção. Então, se se lhe juntar um desvio padrão, a coisa fica completa e é possível, por exemplo, convocar os doentes de modo a garantir que, salvo raras excepções, mesmo que uma cirurgia seja mais rápida do que o esperado, o seguinte já estará à espera. Mas, mesmo que não esteja, centralidade no cidadão significa adaptar os serviços à necessidade do doente e não submeter o doente às necessidades do serviço.