Nota do editor: este artigo é um resumo do texto de Raquel Varela, publicado no «Facebook» [1]


Os grandes clubes portugueses não são clubes. São, principalmente, um negócio, tanto que se chamam sociedades anónimas desportivas, capitalizadas através da banca e isentas de impostos.

O futebol é um desporto primitivo, que reproduz um campo de batalha ancestral. Ao contrário de outros jogos para os quais é preciso saber mais elaborado, o futebol mexe com instintos primitivos, cuja reprodução está na nossa natureza, pelo que será sempre de massas. Não é mau por isso; é mau pelo papel que tem na nossa sociedade.

Como desporto primitivo, de contas obscuras e de ligações políticas ainda mais obscuras, tem sido palco de histórias de violência sistemáticas, denunciadas como associadas a grupos extremistas. A maioria dos adeptos são pacíficos, mas a violência associada tem de ser pensada na sociologia.

Portugal é um país à venda: a banca boa foi vendida aos Espanhóis; os portugueses são vendidos como imigrantes; vendemos casas aos estrangeiros, passamos a viver a cinquenta quilómetros do trabalho e chamamos a isso «sair da crise»; e vendemos jogadores de futebol, porque os produzimos em massa, através de clubes minúsculos que produzem pequenos profissionais, com a ajuda dos pais, que tiram os miúdos da cama às sete da manhã ao Domingo na esperança de que sejam ricos, visto que já não acreditam no ensino para esse efeito. Os países ricos, que produzem cientistas, jamais produzem jogadores de futebol; compram-nos aos países pobres. Para um país rico, é desastroso, porque não é uma economia produtiva. Só os tontos, como nós, acham isto o máximo.

Este negócio foi abraçado pelos políticos e pelo Estado, de tal forma que se liga a televisão e se tem quatro debates de futebol ao mesmo tempo. Os telejornais são política parlamentar (como se não houvesse política fora do Parlamento), catástrofes naturais (como se não houvesse política internacional e só tufões) e futebol (como se não existisse outro desporto, lazer, cultura, livros, teatro). Somos, de forma totalitária, bombardeados com aquilo que, devendo ser um jogo de clubes divertido, passou a ser um sistema totalitário de «cultura», onde nada mais floresce.

Os adeptos portugueses falam horas dum passe, dum golo ou dum treinador, mas não conseguem balbuciar duas linhas sobre dívida pública, trabalho, governo ou Estado, resumindo tudo a uma simplificação perigosa: «é tudo uma roubalheira».

O futebol-negócio tem-se tornado cada vez menos interessante, porque é padronizado para ser mais eficiente. Como tudo no capitalismo, o futebol passou a separar consumidores de produtores. A maioria das pessoas não joga futebol — vê futebol no sofá. O futebol não é, para a maioria, um desporto, porque a maioria dos envolvidos não faz desporto — vê desporto. Temos a mais alta taxa de diabéticos da Europa e o maior número de adeptos. Não foi a jogar futebol nos bairros e fazer disso uma actividade de prazer com os amigos que aqui chegámos; foi a pagar capitais bancários e direitos de TV.

No meio disto tudo há algo que me espanta: como é possível que os sócios dos clubes aceitem estes salários obscenos de milhões pagos a estrelas?

Confesso que nada sei de futebol, mas sei imenso de economia política do futebol. Carregamos nesta economia o que de mais atrasado há. Era bom que jogassem e se divertissem muito — para isso seria necessário reinventar o futebol como um clube de jogadores e não como uma indústria financiada por capitais bancários.

Se em vez de adeptos ferrenhos e fanáticos, quando não violentos, a ver televisão, tivéssemos horários de trabalho que permitissem à malta ter tempo para ir jogar com os amigos, eu seria uma grande adepta do futebol — como espaço de lazer e amizade. Isso seria futebol. Isto que temos hoje é só um negócio.