Nota do editor: este artigo é um resumo do texto de Noah Smith, publicado na «Bloomberg» [1]


Em 1910, Norman Angell publicou um livro, em que defendia que os países se tinham tornado tão interdependentes economicamente, que seria impossível envolvererem-se em guerras longas e destrutivas. A I Grande Guerra começaria poucos anos depois, tornando esta tese alvo de chacota. Contudo, após as duas grandes guerras, as dificuldades económicas na Europa trouxeram o fim de hegemonia imperial do continente e um período de paz [1] — talvez devido ao receio da aniquilação nuclear, ou talvez devido à consciência de que, numa economia industrial moderna, a guerra tem um custo elevado e poucos benefícios (mesmo a invasão do petróleo do Iraque foi uma enorme perda económica).

Actualmente, a tese de Angell aplica-se aos EUA e à China: as duas nações estão tão interligadas economicamente, que a possibilidade dum conflito militar entre ambas é remota [2]. Os EUA são o maior parceiro comercial da China [3] e esta tornou-se o maior parceiro comercial dos EUA desde 2015 [4]. Além disso, o banco central chinês detêm cerca de dois terços das reservas internacionais de dólares norte-americanos (que pode colocar no mercado, em situação de guerra, empurrando a economia norte-americana para a recessão).

Mas, à medida que Donald Trump e o governo chinês reduzem a interdependência económica, o travão do conflito militar vai-se desfiando.

As taxas alfandegárias de Trump e a retaliação chinesa reduziram o comércio em ambos os sentidos, no primeiro trimestre de 2019. As empresas norte-americanas estão a diversificar as suas cadeias de produção para outros países de baixos salários [5]. Mas, mesmo antes da guerra comercial iniciada por Trump, a China já estava a fazer a sua própria guerrilha, excluindo gradualmente as empresas norte-americanas dos mercados chineses [6]. Entretanto, os EUA excluíiram empresas chinesas como a Huawei do acesso a tecnologias cruciais [7] e a China está a ponderar retaliar contra empresas como a Apple, que monta os seus telefones naquele país [8]. Os EUA estão também a restringir o investimento directo chinês [9], enquanto os próprios chineses estão a retirar uma parte substancial do seu investimento [10] e a reduzir as suas reservas de divisas. A ausência de subida das taxas de juro e da inflação nos EUA em resposta a esta redução do investimento chinês convenceu alguns responsáveis norte-americanos de que a venda de títulos de dívida norte-americana não é uma ameaça tão séria como se julgava previamente [11].

Por tudo isto, o confortável travão proporcionado pelos laços económicos entre os EUA e a China está a desaparecer cada vez mais depressa. É improvável que as duas economias se desliguem completamente, mas parece certo que se tornarão cada vez menos indispensáveis uma à outra, com o avanço da guerra comercial. Isto, por sua vez, aumenta o risco de conflito entre as duas nações mais poderosas do mundo.