Por Gustavo Martins-Coelho


Hoje, vou concluir o relato da minha experiência enquanto doente acompanhado no Serviço Nacional de Saúde, a propósito do meu terçolho.

Primeiro, andei um ano com um olho inchado, por causa da lista de espera. É demasiado [1].

Depois, deram-me um papel para a mão, mandaram-me assinar e chamaram a isso consentimento informado [2]

No dia da cirurgia, passei mais de quatro horas sentado na sala de espera e cerca de doze em jejum, desnecessariamente [3].

Está bom de ver que entrei de mau humor no bloco operatório, quando fui chamado…

Mandaram-me despir e vestir a bata do bloco. Até aqui, tudo bem.

Quando entrei na sala onde ia decorrer a cirurgia, deparei-me com três pessoas vestidas de igual, com máscara e touca. Nenhuma delas me cumprimentou, nenhuma delas se identificou. O meu olho clínico permitiu-me perceber quem era a enfermeira, quem era a médica interna e quem era o médico especialista — presumo que orientador da médica interna, mas podia não ser. Mas, onde eu vi um especialista, uma médica em processo de aprendizagem e uma enfermeira, alguém que não seja da área teria somente visto três pessoas vestidas de azul e sem o rosto visível.

A humanização dos serviços de saúde passa por tratar o doente como uma pessoa e não como um parafuso num tapete rolante duma linha de montagem. Naquela sala, porém, eu era o parafuso.

Mandaram-me deitar. A médica interna teve um daqueles brilhantes rasgos, que demonstram por que é tão verdadeira a imortal frase: «o médico que só sabe medicina nem medicina sabe». Tendo eu um terçolho em cada olho, sugeriu operar logo os dois.

O médico especialista comentou:

— Pois, e o doente vai para casa com os dois olhos tapados, não?

Qualquer pessoa com dois dedos de testa vê isto. Menos alguém que passou tanto tempo mergulhado em livros de anatomia e outros que tais, que esqueceu como é o mundo lá fora…

Permitir-me continuar a ver por um olho foi a única intervenção do médico especialista. De resto, dedicou-se a uma importantíssima conversa que estava a ter ao telefone, a propósito dum laser que queria comprar. Presumo que fosse para o seu consultório privado, pois julgo que o sistema de compras para os hospitais públicos não envolve telefonemas a fornecedores no bloco operatório…

A médica interna anestesiou-me. Ou melhor, injectou-me o anestésico local, mas, apesar de todo o tempo passado com o nariz enfiado nos livros de farmacologia, não se lembrou de que todos os fármacos, incluindo os usados em anestesia, têm um tempo de latência — ou seja, um período de tempo entre a sua administração e começarem efectivamente a fazer efeito. A médica interna esqueceu-se disso e começou a cortar antes de que o anestésico tivesse tempo de exercer a sua acção. Senti umas dores, queixei-me e ela continuou a fazer o que estava a fazer, ignorando as minhas queixas de alto a baixo. Entretanto, o anestésico começou realmente a fazer efeito e deixei de sentir dores. Foi o que me valeu, porque, se fosse ficar à espera de que a médica parasse e me perguntasse por que me queixava, estava bem arranjado!

Uma vez terminada a cirurgia, veio novamente a enfermeira despejar-me uma quantidade de antibiótico no olho, que me fez ficar com a visão completamente turva. Tem de ser, claro. Mas podia ser com pré-aviso…

Depois, deu-me o resto da bisnaga para a mão e disse-me que continuasse a aplicar em casa, já não me recordo exactamente quantas vezes por dia, nem durante quantos dias. Mas, na altura, memorizei e segui o procedimento à risca. Ainda assim, pergunto-me como um doente com o dobro da minha idade e possivelmente a quarta classe tirada à noite lidaria com esta importantíssima informação, prestada oralmente por uma enfermeira, ainda dentro do bloco operatório, imediatamente após acabar de ser operado…

Tudo isto findo, saí do bloco, vesti-me e, já vestido, veio a médica interna dar-me um papel, onde dizia que ficava com consulta de reavaliação marcada para daí a um mês, ou perto disso. No dia da consulta, fiz-lhe notar tudo isto que aqui relatei e expliquei-lhe como isto é a negação da relação médico-doente, que lhe ensinaram na faculdade de medicina. Respondeu-me que quem vem ao SNS sujeita-se.

Na cabeça desta médica interna, quem pode faz um seguro de saúde e vai a um hospital privado; quem não pode vai ao SNS e não bufa. Espero sinceramente que a colega, assim que acabar a sua formação no SNS, vá trabalhar para um hospital privado. É que o SNS não precisa de pessoas com esta mentalidade ao seu serviço.