Nota do editor: este artigo é um resumo do texto de Chris Hughes, publicado no «The New York Times» [1]


A última vez que vi o Mark Zuckerberg foi no verão de 2017, meses antes do escândalo da Cambridge Analytica [2]. Desde então, a reputação do Mark e do Facebook caiu a pique, devido às atribuladas práticas que despejaram os dados de dezenas de milhões de utilizadores no colo duma firma de consultoria política, à lenta resposta aos agentes russos, à retórica violenta e às fake news, e ao desejo ilimitado de captar cada vez mais tempo e atenção dos utilizadores. Passaram quinze anos desde que eu fiz parte da equipa fundadora do Facebook, em Harvard, e já não trabalho lá há uma década, mas partilho um sentimento de ira e responsabilidade.

O Mark é a mesma pessoa que eu conheci nos tempos da faculdade: um ser humano, com as suas qualidades e defeitos. Mas é esta humanidade que torna o seu poder ilimitado tão problemático. A influência do Mark é avassaladora, muito superior à de qualquer outra pessoa no sector privado ou no governo. Ele controla três plataformas — Facebook, Instagram e WhatsApp — que milhares de milhões de pessoas usam diariamente. A administração do Facebook é na prática um órgão consultivo, porque o Mark controla cerca de 60% dos direitos de voto [3], conferindo-lhe o poder de decidir sozinho como configurar os algoritmos que determinam o que as pessoas vêem no Facebook, que definições de privacidade podem usar, que mensagens lhes são entregues e como distinguir o discurso violento do meramente ofensivo. Mais: ele pode decidir fechar um concorrente, comprando-o, bloqueando-o ou copiando-o.

O Mark é uma pessoa boa e gentil, mas o seu foco no crescimento levou-o a sacrificar a segurança e a cordialidade em prol dos cliques. Sinto-me desapontado, por não termos conseguido — nos primórdios do Facebook — antever como o nosso algoritmo poderia mudar a nossa cultura, influenciar eleições e ajudar líderes nacionalistas; e tenho receio de que o Mark se tenha rodeado duma equipa que reforça as suas crenças, em vez de as desafiar.

O governo tem de responsabilizar o Mark e assumir o seu papel na protecção dos cidadãos e do mercado. A multa de cinco mil milhões de dólares que a Federal Trade Commission se prepara para aplicar ao Facebook e a decisão, da parte deste, de nomear uma espécie de czar da privacidade [4] não são suficientes. No testemunho do Mark no Congresso, no ano passado, os legisladores passaram a imagem de serem demasiado velhos e infoexcluídos para compreender a tecnologia.

Mas os legisladores sabem intervir contra monopólios, independentemente das boas intenções dos líderes destas empresas. O poder do Mark não tem precedentes e vai contra os princípios básicos da sociedade norte-americana.

É hora de dividir o Facebook.