Por Gustavo Martins-Coelho


Até hoje, nunca tinha percebido muito bem o que era o sítio «Notícias ao minuto» [1]. Hoje, fui investigar e o seu estatuto editorial define-o como «um jornal online, actualizável a qualquer hora […], que disponibiliza informação geral independente e pluralista […], sem qualquer dependência de natureza política, ideológica e económica» [2]. Portanto, é um jornal em formato electrónico. Nada contra.

Diz também o estatuto editorial que «é concebido, redigido e produzido por jornalistas profissionais» [2]. São vinte e cinco, no total, dos quais menos de um terço homens; e, destes poucos, apenas dois não são jornalistas de desporto ou de tecnologia. O conselho editorial é exclusivamente composto por mulheres [3]. Se isto não é sexismo, eu vou ali e já volto…

Mas voltemos ao estatuto editorial: diz ainda que «Notícias ao Minuto é um órgão de informação que recusa o sensacionalismo e é orientado por critérios de rigor, isenção e honestidade», definindo «as suas prioridades informativas exclusivamente por critérios de interesse público, de relevância e de utilidade da informação» [2].

No entanto, publica artigos como este [4], que tem como título: «Pela sua saúde durma sobre o lado esquerdo do corpo. A ciência explica». Se isto não é sensacionalismo (ou clickbait, como soi dizer-se actualmente), eu, mais uma vez, vou ali e já volto!

Comigo, o clickbait resultou: abri o artigo, para saber o que diz a ciência sobre a posição em que dormimos. Primeiras nove palavras do artigo:

De acordo com a Ayurveda (antiga medicina tradicional indiana) […]

A ayurveda é uma antiga medicina tradicional indiana, não é uma ciência. Aliás, eu já aqui [5] desmontei a falta de base científica da medicina ayurvédica e identifiquei quais os ensinamentos a aproveitar da ayurveda: redução do consumo alimentar, alimentação variada, rica em vegetais de cores diversas e redução do consumo de carne [6]; abandono do consumo de cannabis; bem como o potencial da fitoterapia: algumas plantas usadas pela medicina ayurvédica já serviram de base a medicamentos e outras estão a ser estudadas [7].

Mas voltemos ao artigo do «Notícias ao minuto»: além de sensacionalista, falta-lhe também rigor e honestidade: a ayurveda não é uma ciência, os seus ensinamentos não têm qualquer demonstração científica e o artigo em questão é de duvidosas relevância e utilidade e ainda mais duvidoso interesse público.

Em suma, foi mau jornalismo.

Então, e quanto à matéria em questão — a posição em que dormimos? Antes de nos preocuparmos com isso, deveríamos preocupar-nos em fazer uma boa higiene do sono [8]: evitar cafeína, álcool, nicotina e outras substâncias que interferem com o sono; transformar o quarto num ambiente indutor do sono; estabelecer uma rotina calmante antes de dormir; ir dormir quando se está mesmo cansado; não olhar para o relógio; usar a luz a seu favor; manter o relógio interno pontual; fazer a sesta cedo; o jantar leve; equilibrar o consumo de líquidos; fazer exercício cedo; e ser consistente. Isso, sim, tem um impacto demonstrado na saúde.

Quanto à posição em que dormimos em si, no caso dos bebés, tem impacto: dormir de costas é a melhor opção, para prevenir a morte súbita do bebé [9]. No caso dos adultos, é mais complicado. Nalguns casos de apneia do sono, dormir de costas agrava a situação. Mas nem sempre, de modo que é preciso estudar caso a caso e, quando recomendado, alterar a posição em que se dorme. Mas, para além da apneia do sono, há outras situações dignas de referência: se uma pessoa sofrer de epilepsia, dormir de barriga para baixo aumenta o risco de morte súbita [10]; e, tal como os bebés, os doentes com glaucoma devem dormir de barriga para cima [11]. Fora isto, há mais alguns estudos que podem vir a revelar-se grandes descobertas, mas que, para já, ainda é cedo para fazer recomendações com base neles.

Isto, sim, é o que a ciência explica.