Por Gustavo Martins-Coelho


Uma das coisas que mais tenho repetido por aqui é que não sou contra as medicinas alternativas. Sou é a favor duma medicina que integre todos os campos do saber demonstrado cientificamente.

Um bom exemplo do que acabo de dizer é o yokukansan, um produto da medicina tradicional japonesa — a medicina kampo — que é usado para combater os sintomas comportamentais e psicológicos da demência. Este produto foi estudado no laboratório e demonstrou ter vários princípios activos, com várias acções benéficas a nível neurológico. Foram isolados alguns desses princípios activos e o seu comportamento foi estudado em ratos. Falta então demonstrar que é eficaz em seres humanos e talvez tenhamos um novo remédio pronto a ser comercializado [1].

Igualmente, da medicina tradicional chinesa chegou-nos a artemisinina [2], que é, actualmente, um dos melhores medicamentos que temos para tratar a malária.

Outro bom exemplo é a terapia alimentar. Por exemplo, para doentes hipertensos, a medicina tradicional chinesa recomenda aipo, tomate, banana, alho, cebola, algas, maçã, milho, feijão verde, dióspiro, quivi, melancia, beringela, cenoura, cogumelos, amendoins, soja, pepinos-do-mar, trigo, malmequeres, espinafres, mel, lacticínios, vinagre, medusas, cebolinho, bolsas-de-pastor, batatas, pera, abóbora, melão, aveia, ervilhas e chá [3]. Tirando algumas coisas um bocado mais obtusas (mas que só assim lhes chamo, porque não são comuns na nossa alimentação) o que há a dizer a isto? Uma alimentação saudável, rica em fruta e vegetais — e sem sal —, para reduzir a pressão arterial? Nada contra!

O problema começa quando medicamentos chineses querem ser recomendados como medicamentos contra a hipertensão, sem terem demonstrado inequivocamente qualquer benefício para os doentes, até à data [4, 5]. O mesmo para a massagem tui-ná [6].

Falando em medicamentos chineses, outro grande desafio que se coloca aos produtos vendidos como medicamentos tradicionais chineses é o controlo de qualidade, para o qual têm sido desenvolvidas diversas técnicas [7, 8, 9, 10]. Às vezes, pergunto-me se vale a pena tanto esforço no controlo da qualidade, quando a eficácia não está demonstrada, mas depois lembro-me de que, pelo menos assim, reduzimos o risco de contaminação com outras substâncias que poderiam fazer mal às pessoas…

Mas o próprio medicamento, tal como sucede com os medicamentos utilizados pela medicina científica, pode causar efeitos secundários, independentemente do controlo de qualidade a que é sujeito. Um dos efeitos mais frequentes é a lesão do fígado, que pode levar à necessidade dum transplante de fígado ou mesmo à morte. Estima-se que um quarto de todas as situações de toxicidade hepática por medicamentos sejam devidas a medicamentos tradicionais chineses [11].

O tema da medicina tradicional chinesa não termina aqui, mas é tempo de falar do objecto do dia, que hoje são os fixadores para mobília.

Uma criança morre, em média, a cada duas semanas, presa ou esmagada debaixo de móveis altos — estantes, por exemplo — que tombam por cima delas; e muitas mais sofrem todos os dias lesões devidas a móveis que tombam. Os fixadores, apetrechos baratos e fáceis de instalar, podem ajudar a reduzir este tipo de acidentes. O perigo dum móvel cair em cima duma criança, ou mesmo dum adulto, é real e frequentemente subestimado.

Mas, no caso das crianças, com tantos perigos, além da mobília, numa casa moderna, a segurança tornou-se um negócio, nas décadas recentes. Os especialistas recomendam de tudo, desde cobrir as tomadas eléctricas a grades de segurança no cimo das escadas, passando por fechos para armários e tampas de sanita, bem como apetrechos para não deixar as crianças asfixiar em correntes ou cordões de estores interiores. Embora estes equipamentos possam ajudar a prevenir lesões nos mais pequenos, certamente não suplantam um adulto vigilante…