Por Gustavo Martins-Coelho


Na semana passada, mais dois dias de greve de médicos. Aderi, claro. As razões de queixa são muitas; diria mesmo que são mais do que as razões de satisfação.

Não vou gastar muito tempo com o assunto. Há coisa dum ano, fiz greve — a terceira greve em quatro anos — e disse, resumidamente, que queria que, quando fosse a minha vez de precisar do Serviço Nacional de Saúde, ele respondesse satisfatoriamente à minha necessidade de saúde. Para isso, é preciso que haja os profissionais adequados, em número adequado, com a formação adequada, motivados e dedicados [1].

Hoje, depois da execrável experiência que recentemente relatei neste espaço [2, 3, 4, 5], quero, mais do que nunca, um SNS funcional; e é por isso que fiz novamente greve na semana passada.

A esperança é a última a morrer, mas está por um fio. O ministro Adalberto era o que era [6]. A ministra Marta é o que eu esperava que fosse: uma ministra a empurrar para a frente, com ilusões e promessas de negociação, e as demais partes interessadas a esperar para ver [7]. A esperar para ver — até agora, a três meses das eleições. Alguma coisa irá mudar, nestes três meses, por causa desta greve? Duvido. Mas, pelo menos, sempre se barafusta. Às vezes, é terapêutico.

Dito isto, vamos já despachar o objecto do dia e, se ainda der tempo depois, falamos mais um pouquinho sobre medicinas pré-científicas [8].

Para hoje, trago o frigorífico. Durante o início do século XX, a comida contaminada provocava muitas infecções e intoxicações de origem alimentar, incluindo febre tifóide, botulismo e escarlatina. Estas doenças estão relacionadas com a falta de refrigeração, a qual pode reduzir a proliferação de agentes causadores de infecções e intoxicações, tais como a Salmonella, o Clostridium, e os Staphylococcus. Antes do advento dos frigoríficos domésticos e dos congeladores industriais, as pessoas armazenavam a comida em blocos de gelo ou, se o tempo estivesse frio, enterravam-na no quintal ou deixavam-na num parapeito da janela. Outros métodos havia, tais como a salga e o fumeiro, mas, hoje em dia, quase todas as habitações têm um frigorífico e algumas até têm dois, ou uma arca congeladora. Em parte graças a estes electrodomésticos, o número de casos de infecções e intoxicações alimentares baixou significativamente nos últimos cem anos.

Concluído que está o objecto do dia, sobra ainda espaço para mais umas considerações sobre medicina tradicional chinesa [9].

Terminei, na última crónica, dizendo que a lesão do fígado tem frequentemente origem em medicamentos tradicionais chineses [10]. O que eu não disse foi que o número de casos está a aumentar [11] e é um dos maiores problemas da medicina tradicional chinesa [12], estando identificadas umas dezenas de preparados com potenciais efeitos prejudiciais para o fígado [13, 14].

Ainda no fim-de-semana passado, enquanto conversava com amigos, um deles disse que, embora não estivesse demonstrado que as medicinas ditas alternativas funcionam, desde que cada doente, individualmente, se sentisse satisfeito com o tratamento alternativo, não havia razão para o não fazer, nem que fosse pelo efeito placebo [15]. Ora aqui está a razão: o tratamento não é inócuo. Portanto, além do potencial benefício, tem de ser também equacionado o risco [16]. Se o benefício não está demonstrado (como eu tenho vindo a exaustivamente descrever [8]), mas o risco — esse sim — está, então está claro que a balança pende indubitavelmente para o lado do risco. Ou seja, para que não restem dúvidas: tomar medicamentos tradicionais chineses é um risco para a saúde, sem qualquer benefício demonstrado.

Onde os tratamentos pré-científicos são mais usados é nas doenças para as quais a oferta de tratamento de base científica também é mais restrita. Um desses exemplos é a paralisia de Bell, que afecta os músculos da cara e cuja causa não está bem estabelecida. Tirando os corticosteróides, para reduzir a inflamação, e a prevenção de complicações, por exemplo, no olho [17], pouco há a fazer. Mas a medicina tradicional chinesa, embora seja, por vezes, empregue nestas situações, também não conseguiu demonstrar que funcione [18].