Por Gustavo Martins-Coelho


Vamos falar mais um pouco de medicina tradicional chinesa? Vamos a isso, até porque há imenso para dizer!…

Um dos principais óbices à adopção da medicina tradicional chinesa pelos médicos com formação científica é o preconceito — o preconceito da medicina tradicional chinesa contra os laboratórios e a ciência.

Esqueçam os preparados herbais chineses: o futuro da medicina tradicional chinesa passa por isolar os compostos efectivamente úteis do seu ementário e transformá-los em comprimidos, tornando-os assim mais eficazes, seguros, e fiáveis. A cromatografia pode ter aqui um papel [1, 2, 3]. É verdade, por exemplo, que a medicina tradicional chinesa lida com substâncias úteis na prevenção e no tratamento de doenças do fígado [4, 5, 6]; falta é transformar isso em substâncias que possam ser administradas de forma controlada aos doentes [7].

Esqueçam também as teorias chinesas [8], como a de que o rim controla a reprodução [9]: a fisiologia humana é o que é, não o que gostaríamos que fosse. Procurem demonstrar que funciona e, de preferência, sejam capazes de explicar o modo de funcionamento em termos científicos. A proteómica pode dar uma ajuda [8, 10, 11, 12, 13].

Igualmente, esqueçam o carácter milenar da medicina tradicional chinesa como justificação da sua eficácia [8, 10]. Sabem doutra prática milenar? A escravatura — que não me parece que, só por se praticar há milénios (e se continuar a praticar nos dias que correm [14], para vergonha da nossa espécie), esteja automaticamente justificada…

De resto, experimentem. Experimentem tudo. De preferência, de forma adequada a comprovar cientificamente aquilo que pretendem demonstrar. Um exemplo do que acabo de dizer é a artrite do joelho: vários estudos indicam que a medicina tradicional chinesa, em particular os exercícios tradicionais [15], pode ser eficaz. Porém, os estudos não são suficientemente robustos para estabelecer uma comprovação inequívoca. Daí que não seja boa ideia aplicar os resultados desses estudos na prática clínica, sem antes realizar mais estudos, de qualidade [16].

O mesmo é verdade para a síndrome do intestino irritável, que provoca dores e inchaço na barriga e alterações do trânsito intestinal. O tratamento prescrito é principalmente dirigido aos sintomas, porque não se conhece a causa, e a medicina tradicional chinesa apresenta resultados promissores, mas esses resultados foram obtidos em estudos que não passam o teste da qualidade [17, 18], pelo que têm de ser repetidos, mas, desta vez, bem feitos.

O mesmo para as doenças dos rins. Primeiro, é preciso confirmar que os preparados à base de plantas usados para estas doenças funcionam mesmo [19, 20] e, depois, isolar os compostos responsáveis pela sua eficácia, identificando também, pelo caminho, a mecanismo de acção [21, 22].

Já que falamos de rins: a medicina tradicional chinesa propõe banhos quentes, tipo sauna, como forma de diálise [23]. Apesar de encarar a ideia com um sorriso céptico, estou disposto a deixar-me convencer pela ciência…

Para terminar, vamos falar do alarme de incêndio como objecto do dia.

Os alarmes de incêndio têm salvo milhares de vidas, nas últimas décadas. O antecessor dos modernos detectores de incêndio foi inventado no final do século XIX. Era eléctrico e funcionava através da detecção de temperaturas anormalmente altas. O único inconveniente é que, frequentemente, a temperatura só atingia valores susceptíveis de fazer disparar o alarme quando já era demasiado tarde…

Em 1965, foram desenvolvidos os alarmes de incêndio modernos, que detectam fumo em vez de calor, disparando muito mais cedo.

Um estudo de 2015 concluiu que 38% das mortes por incêndios domésticos poderiam ser evitadas, se as casas onde eles ocorreram tivessem alarmes de incêndio. A estas mortes evitáveis, somam-se as que poderiam ter sido evitadas, se os alarmes existentes estivessem funcionais (sendo que a principal causa da sua inoperacionalidade é a falta de bateria).