Por Gustavo Martins-Coelho


O objecto do dia de que vou falar hoje é tão importante, que vou começar por ele! A sanita!

A sanita é um alvo fácil de piadas e ninguém fica indiferente quando se fala dela, mas a sua história mais importante é a do seu papel na saúde pública.

Foi um cortesão inglês, que por acaso era afilhado da rainha Isabel I e se chamava João Harington, quem inventou a sanita em 1596. Até aí (e muito depois disso, diga-se de passagem, porque as invenções demoram o seu tempo a generalizar-se), as pessoas não tinham outro remédio que não fosse usar casas-de-banho comunitárias, penicos e buracos no chão. Estas práticas faziam com que os desperdícios assim eliminados se infiltrassem nas águas subterrâneas e as contaminassem. A partir daí, estava aberta a porta a que, através da captação destas águas em poços ou nascentes, as pessoas fossem contagiadas por doenças bastante desagradáveis, para não dizer mortais. Parecendo que não, ter restos de cocó dissolvidos na água que bebemos não faz muito bem à saúde…

As sanitas generalizaram-se no século XIX, graças em parte a um canalizador inglês com o adequado nome de Tomás Crapper… Porém, mesmo assim, ainda hoje 2,4 mil milhões de pessoas no mundo continuam a não ter acesso a sanitas limpas e seguras — uma realidade que a Organização Mundial da Saúde e outras entidades estão a tentar mudar.

Dito isto, vamos falar mais um pouco de medicina tradicional chinesa; e pego na ideia que deixei na última crónica: não basta publicar estudos, é preciso que esses estudos tenham qualidade, para suportar as suas conclusões.

É o caso da medicina tradicional chinesa e do seu esforço de modernização, validação científica e internacionalização, ao longo das últimas duas ou três décadas [1]. Há histórias de sucesso e abordagens cientificamente válidas [2], mas há também muitas fragilidades.

No caso do acidente vascular cerebral, por exemplo, há bastantes estudos que indicam um papel positivo da medicina tradicional chinesa na melhoria dos sintomas neurológicos, na mortalidade e na qualidade de vida após um AVC, mas não têm qualidade suficiente para permitir fazer uma recomendação séria [3, 4, 5].

O mesmo se aplica à fadiga crónica [6] e à angina de peito [7]: os estudos apontam para a putativa eficácia da medicina tradicional chinesa, mas não têm qualidade suficiente para comprovar essa eficácia para lá de qualquer dúvida.

Aliás, as conclusões dos estudos parecem decalcadas umas das outras. A frase típica é: «a medicina tradicional chinesa parece ser eficaz no tratamento da doença xis, mas são necessários mais estudos, de melhor qualidade e dimensão, para confirmar os resultados obtidos» [8].

Onde estamos mais perto de poder afirmar com certeza que a medicina tradicional chinesa pode ter utilidade é no tratamento da constipação [9] e na prevenção das complicações da fibrilação auricular [10]. Mas, mesmo aqui, temos de ser selectivos e críticos, pois nem todos os produtos medicinais chineses estão igualmente estudados, nem todos os estudos possuem um mínimo de qualidade [11].

Por outro lado, uma parte da medicina tradicional chinesa continua a usar mercúrio nos seus tratamentos [12, 13], apesar de estar perfeitamente demonstrada a sua toxicidade (e, por isso mesmo, o mercúrio ter sido abandonado em todas as práticas médicas e dentárias). É, no mínimo, curioso que um dos argumentos usados pelos adeptos do movimento contra as vacinas seja a presença de mercúrio nas mesmas (o que é falso há, pelo menos, dez anos) [14] e que, depois, se venha a ver que há medicinas ditas alternativas que o usam impunemente e com o apoio dos ditos antivacinas… As pessoas têm o direito a ser estúpidas. Mas deveriam ser coerentes na estupidez…