Por Gustavo Martins-Coelho


Às vezes, quando estou a investigar o assunto das medicinas pré-científicas [1], para neste espaço apresentar o que se vai sabendo sobre o mesmo (e, na maior parte dos casos, demonstrar a sua inutilidade como prática médica), dá-me alguma vontade de rir. Foi o caso, por exemplo, quando li um artigo sobre a utilização da inteligência artificial para diagnosticar doenças através da língua [2]. Então é assim: há doenças que se podem diagnosticar através da língua — sobretudo as doenças da língua! Mas não é disso que estes investigadores falam: o que eles pretendem é pôr computadores a diagnosticarem doenças que nada têm que ver com o aparelho digestivo, nem causam quaisquer sintomas linguais, através da língua, em substituição de pessoas que, actualmente, julgam poder fazer isso. Chega a ser cómico!…

Outras vezes, fico indignado. Foi o caso, por exemplo, quando analisei a questão do mercúrio nos preparados tradicionais chineses [3]. Outra coisa que me suscita indignação é a sulfatação que é feita no processo de fabrico desses preparados tradicionais chineses, que resulta muitas vezes na síntese de substâncias altamente tóxicas [4], como o dióxido de enxofre [5], que alteram as propriedades do produto e [4] podem fazer muito mal ao fígado [6, 7], aos rins e a outros órgãos [8]. Indignação, porquê? Porque, mais uma vez, andam uns a dizer que a agroindústria usa produtos químicos muito maus para as pessoas (tipo herbicidas à base de enxofre) e temos de comer alimentos biológicos, livres dessas coisas; e daí extraem a teoria de que o que é natural é que é bom (como se uma cobra venenosa, lá porque vem da natureza, fosse boa para a saúde…) e vamos todos usar produtos medicinais das medicinas tradicionais e alternativas e tudo isso que não vem dos laboratórios, mas que leva com tanto ou mais enxofre do que os pecaminosos alimentos produzidos industrialmente… Como eu dizia na crónica passada [3], as pessoas têm direito a ser estúpidas. Mas sejam coerentes na estupidez que escolherem como modo de vida!

De resto, o habitual: os estudos existentes são insuficientes para demonstrar a eficácia da medicina tradicional chinesa na prevenção das doenças cardiovasculares [9, 10] e na púrpura de Henoch-Schönlein (uma doença auto-imune das crianças) [11], sobretudo porque não têm qualidade metodológica suficiente para poderem afirmar o que pretendem afirmar. Onde há boas notícias é nos exercícios tradicionais chineses (tais como o tai-chi [12]). Provavelmente, o que os estudos neste campo significam é que qualquer tipo de exercício, chinês ou não, é melhor para a saúde do que ficar sentado no sofá. Nada de novo…

É tempo agora para o objecto do dia. Para hoje, escolhi o fogão.

Há coisa de dois meses, falei do frigorífico [7], do seu papel na conservação dos alimentos e, por essa via, na prevenção de doenças causadas pela deterioração daqueles. Mas não basta ter comida bem conservada; também é preciso cuidado na sua preparação [13].

Quase metade da população mundial cozinha os alimentos usando fogueiras a lenha, carvão vegetal ou carvão mineral. Os fogões a lenha tradicionais são usados geralmente por mulheres e crianças nos países em desenvolvimento e, tal como as fogueiras, expõem as pessoas a fumos com altas concentrações de poluentes.

A Organização Mundial da Saúde estima que morrem prematuramente 4,3 milhões de pessoas por ano, por causa de doenças relacionadas com a poluição do ar das suas habitações causada pelos fogões e pelas fogueiras usados para cozinhar. As mulheres grávidas que respiram os fumos tóxicos têm maior probabilidade de terem bebés com baixo peso ao nascer. O fumo dos fogões a lenha também causa asma na infância, facilita a aquisição de pneumonias e aumenta o risco de cancro e outras doenças dos pulmões.

A substituição destas práticas por fogões modernos, mais limpos, amigos do ambiente e seguros, ajuda a salvar vidas.