Por Fábio Morgado


Desde que comecei a publicar neste blogue [1] — em especial nos meus artigos mais antigos [2] —, deixava sempre o aviso que falaria do caso e-toupeira quando houvesse uma decisão do tribunal. Bem, após o que eu sinto ter sido uma eternidade (mas, na realidade, foram dois anos), finalmente saiu uma sentença e o resultado foi o esperado: o Benfica foi absolvido.

Iremos recuar até Dezembro passado: a juíza Ana Peres decidiu, durante a fase de instrução, não levar a SAD do Benfica a tribunal. A acusação recorreu, mas o Tribunal da Relação decidiu na semana passada não dar provimento. Não me farei entendido em questões jurídicas, porque o não sou. Este espaço [3] é para expressar a minha opinião sobre os acontecimentos futebolísticos e é lamentável que tantos sejam os artigos nos quais não falo de bola.

O que realmente acho é que não há fumo sem fogo. Existem diversas provas nos e-mails que vieram a público, mas, por terem sido obtidos ilegalmente, não se podem ser usados como prova. Longe vão os tempos das histórias que ouvia a respeito do tempo da ditadura, em que alguém podia delatar o que outrem andava a fazer ilegalmente e a polícia investigava, capturava e condenava o criminoso. Hoje em dia, condena-se o hacker que obteve a informação… Concordo que a violação da privacidade dos servidores de onde foram extraídos os e-mails deva ser condenada, porque se tratou de facto dum acto ilícito. Mas a informação não deixa por isso de ser verídica…

Apesar de achar que o Benfica é culpado, eu, na verdade, ansiava por que a SAD fosse ilibada, pois, se o contrário sucedesse, o clube acabaria por ser penalizado com a descida de divisão (ou pior) e a verdade é que o Benfica acaba por ser um motor económico a nível nacional e representa Portugal pelo mundo. Por exemplo, quando o Benfica for jogar a França contra o Lião, a não ser que o emblema gaulês tome medidas especiais, creio fortemente que irão ser mais adeptos benfiquistas do que lioneses, devido à forte presença imigrante de origem portuguesa em França.

Infelizmente, a nossa cultura é de corrupção generalizada. Há uma data de anos, o caso do Apito Dourado, em que também havia provas áudio, resultou em nada. A diferença entre estas escutas e os e-mails é que, nas escutas, ouvíamos árbitros e pessoas influentes do F.C. Porto a negociar como influenciar o resultado. Agora, o envolvido é o Benfica. Existe ainda o caso Cashball, que envolve o andebol do Sporting e em que o próprio responsável pelos subornos admitiu o crime.

Infelizmente, isto vai além do futebol. Por exemplo, a reconstrução após os incêndios de Pedrógão Grande [4], só para citar um caso recente… Temos uma sociedade corrupta e só uma pessoa com poder absoluto e com uma bússola moral forte poderia fazer a diferença. Mas, como Maquiavel disse, o poder absoluto corrompe absolutamente. Não vejo saída, portanto.