Por Gustavo Martins-Coelho


Na última semana, o objecto do dia foi o fogão [1]. Esta semana, continuamos na cozinha: o objecto do dia é a frigideira.

Falar da importância da frigideira na saúde pública implica dizer uma palavra difícil: ácido perfluorooctanóico, normalmente abreviado para a sua sigla: PFOA. O PFOA é uma substância usada para fabricar materiais anti-aderentes e resistentes às manchas.

Há pouco mais duma década, as frigideiras com Teflon dominavam o mercado dos utensílios de cozinha. O problema do Teflon e doutros materiais fabricados com PFOA e outras substâncias sintéticas, tais como, por exemplo, os sacos de pipocas de microondas e caixas de piza, entre outros produtos, é a libertação para o meio ambiente de substâncias potencialmente prejudiciais, durante o seu processo de fabrico.

Mas isto é muito mais do que uma questão de protecção ambiental. Aliás, um dos nossos problemas, enquanto sociedade humana, é a nossa visão encaixotada das coisas: tendemos a dividir o mundo em duas caixas — numa caixa, metemos a natureza; na outra, metemos o ser humano e tudo o que ele produz. Ora, os seres humanos fazem parte da natureza; e os produtos que fabricamos fazem igualmente parte da natureza. Não há, filosoficamente — nem sequer quimicamente, a bem dizer — uma diferença fundamental entre uma barragem de cimento feita por uma empresa de construção civil e uma represa de madeira feita por um castor; nem entre uma cidade humana e uma colmeia; nem entre uma mina para extracção dum qualquer minério e um formigueiro subterrâneo; nem entre a agricultura e o cultivo de fungos por parte das formigas; nem entre o Burj Khalifa, o edifício mais alto do mundo, e uma torre de térmitas (que, diga-se de passagem, equivale a mais de dois Burj Khalifas empilhados, proporcionalmente à dimensão dos seres que a constroem) — só para dar um par de exemplos do que quero dizer.

De igual forma, dizer que a selecção natural não actua sobre a espécie humana é, não só arrogante, mas também falso. A selecção natural actua através dum equilíbrio entre características do indivíduo e características do ambiente. Se o ambiente muda, indivíduos com diferentes características passam a ser seleccionados. Por outras palavras: as alterações climáticas são meramente uma alteração do ambiente em que estamos inseridos, que pode condicionar uma alteração nas características que conferem maior adaptação. As características da nossa espécie podem não estar adaptadas ao que aí vem e, portanto, a extinção da espécie humana é uma possibilidade real, fruto da selecção natural.

Mas estou a divagar! O que queria dizer é que as substâncias que são libertadas para o meio ambiente durante a síntese do ácido perfluorooctanóico e o fabrico dos produtos que o incorporam como matéria-prima acabam por voltar a nós, à nossa corrente sanguínea. Um estudo de 2007 encontrou substâncias da família do PFOA presentes em mais de 98% das mais de 2.000 amostras de sangue humano analisadas. O efeito da presença destas substâncias no sangue sobre a saúde das pessoas ainda não está estudado.

Em 2006, oito fabricantes concordaram em eliminar o PFOA do processo de fabrico de frigideiras anti-aderentes até 2015. Mas os problemas com o PFOA persistem e é por isso que, nos EUA, a Agência de Protecção Ambiental avisou as entidades gestoras de redes de abastecimento de água de que deveriam analisar o nível de PFOA na água que fornecem.

As frigideiras de Teflon são um de muitos exemplos de como a revolução trazida pelas substâncias sintéticas teve consequências inesperadas.

Dito isto, já pouco tempo sobra para outros temas, pelo que é talvez preferível ficar por aqui, para não atabalhoar, e, para a semana, retomamos um tópico que se tem mostrado inesgotável, por estas paragens: o que podem (ou mais ou que não podem) as medicinas ditas alternativas, mas que eu prefiro chamar pré-científicas, fazer por si.