Por Gustavo Martins-Coelho


Este Domingo, foi dia de eleições. Apesar deste espaço [1] se destinar a falar de saúde, não podia deixar de dizer duas palavras sobre os resultados.

Na verdade, nem é «apesar deste espaço ser sobre saúde»: a saúde deve estar presente em todas as políticas [2, 3, 4], pelo que o resultado das eleições tem implicações enormes, não só na política de saúde, mas também na forma como as políticas dos demais sectores influenciam, de forma positiva ou negativa, o estado de saúde da população.

Portanto, por este ser um espaço sobre saúde, não podia deixar de comentar os resultados eleitorais.

Fiquei globalmente satisfeito com os resultados. O modelo «ADSE para todos» proposto pelo CDS foi chumbado pelos eleitores, bem como o «seguro de saúde para todos» proposto pelo Aliança. O que estas duas propostas não dizem é que ADSE e seguro de saúde para todos significa o fim do SNS e, com ele, um aumento da despesa em saúde, sem um concomitante aumento dos níveis de saúde — ou seja, gastar mais dinheiro para atingir os mesmos resultados — e um perigo sempre latente: o da redução da cobertura, quer em termos de pessoas abrangidas (o SNS é para todos, pobres ou ricos, relembro), quer em termos de serviços abrangidos (desde que o PS criou os cheques-dentista e a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, o SNS cobre praticamente todos os cuidados de saúde).

Resumindo e ilustrando o que quero dizer com uma história pessoal: a minha mãe precisou de ser internada. Como tem ADSE, ponderámos um hospital convencionado, mas rapidamente desistimos: o internamento, contas por alto e já contando com as comparticipações da ADSE, ficaria por quase trinta mil euros! Fomos para o SNS, onde as taxas moderadoras se ficaram pelos cinquenta euros, se não me falha a memória.

ADSE ou seguro para todos é isto: trinta mil euros por um internamento. O resto é demagogia.

Fiquei preocupado com a eleição dum deputado da Iniciativa Liberal. Claro que pagar menos impostos é apetitoso. Eu adoraria pagar menos impostos! Mas vamos fazer uma conta simples. Portugal gastou 18,3 mil milhões de euros em saúde, em 2018. Destes, apenas 67% foram financiados pelo Estado; o resto foi pago pelas pessoas ou por seguros privados. Mas peguemos no valor total e dividamo-lo pelo número de pessoas empregadas: dá €3760. Ou seja, garantir um SNS realmente universal, geral e gratuito, como manda a Constituição, custaria a cada trabalhador português, em média, €3760 por ano. Dividindo por catorze — o número de salários e subsídios de férias de Natal auferidos por cada trabalhador —, isto dá cerca de €270 por mês. Ou seja, para manter o SNS a funcionar, cada português teria de descontar €270 do seu ordenado. Tendo em conta que cada trabalhador português aufere, em média, aproximadamente €1.130, seria necessário que cada um descontasse 23% em IRS, só para financiar a despesa em saúde.

Obviamente, estou a simplificar: estou a usar valores médios e a assumir uma taxa fixa de imposto, igual para todos. Na realidade, há escalões, há outros impostos além do IRS, e muita fiscalidade em que não sou especialista. Mas dá para ficar com a ideia geral do que quero dizer: o que a Iniciativa Liberal propõe, ao dizer «vamos baixar impostos» é o fim do SNS, ou pelo menos a sua redução à menor expressão possível. Isto para falar só na área da saúde. Contas semelhantes poderiam ser feitas para o resto da despesa pública.

Agora, pergunto: quantos de nós gostariam realmente de ser ver livres do SNS? E quantos dos que votaram na Iniciativa Liberal fizeram estas contas?…

Sobra a eleição da deputada do Livre: preocupa-me, porque o Livre parece ter sido tomado de assalto por forças da pior espécie de feminismo [5], daquele exclusivamente dedicado ao delírio antimasculino, autoalimentado pela partilha em círculo fechado de noções quase ridículas de raiva dirigida contra a diferença, de negação da biologia humana e de totalitarismo de pensamento; um ódio ao homem branco travestido de pseudofeminismo de terceira vaga, que perdeu o interesse pelo diálogo, perdeu o foco na persuasão como arma política e, em última instância, fruto dessa perda, tornou-se estéril e inútil na promoção da mudança social que diz pretender realizar. Esperemos que a deputada eleita pelo Livre seja realmente feminista intersectorial: ainda haverá esperança, se for realmente o caso.

E que tem o feminismo que ver com saúde? Muito, conforme já expliquei aqui no que diz respeito às doenças infecciosas [6] e ao consumo de tabaco [7].