Por Gustavo Martins-Coelho


Depois da reflexão sobre os resultados eleitorais, impõe-se uma curta reflexão sobre a nova equipa que vai liderar o ministério da saúde [1].

Sobre a ministra da saúde, que se mantém em funções, já expressei as minhas reservas, aquando da sua nomeação [2]. Lembro-me de, na altura, ter recebido comentários sobre a importância de não julgarmos a capacidade política duma pessoa pela sua formação académica. Se não pudermos julgar uma pessoa pelo seu currículo, vamos julgá-la pelo quê, então? Pelo grau de parentesco com o primeiro-ministro? A propósito, ele jurou, tanto quanto ouvi dizer, que não há familiares neste governo [3]

Mas pronto, sobre o currículo da ministra: disse eu que um médico a gerir saúde está certo, mas uma jurista com pós-graduação em administração hospitalar e mestrado em economia da saúde — a formação académica da nossa ministra — é perigoso. O que quero eu dizer com isto? Muito simples: os (poucos) estudos existentes sobre este tema têm demonstrado que as organizações geridas por peritos da área obtêm melhores resultados. Estes estudos têm sido replicados, com os mesmos resultados, em universidades, onde os directores de departamento que são eles mesmos investigadores obtêm maior produção científica; em equipas de basquetebol, em que as que são treinadas por antigos jogadores obtêm melhores resultados na NBA; e mesmo na fórmula 1, onde as equipas lideradas por antigos pilotos também se saem melhor [4]. Um estudo recente mostrou também que ter um patrão que é especialista na área de negócio está associado a maiores níveis de satisfação dos trabalhadores e menor vontade de mudar de emprego [5]. E, nos hospitais dos EUA, aqueles geridos por médicos têm pontuações em matéria de qualidade aproximadamente 25% superiores aos que são geridos por gestores profissionais [4].

Portanto, resumindo e concluindo: se queremos um bom ministro da saúde, é mais provável que o consigamos nomeando um médico do que um jurista que aprendeu economia…

E que dizer duma secretária de Estado que é economista e trabalhava numa empresa do sector energético? Acrescente-se ainda emprego, assuntos sociais e desenvolvimento regional no parlamento europeu; a secretaria geral da Juventude Socialista e a comissão política nacional do PS e da recandidatura de Jorge Sampaio à presidência e temos a perfeita aplicação da expressão idiomática inglesa: jack of all trades, master of none. Não me ocorre equivalente em Português; se o houver, agradeço que me digam. Mas, enfim, está no mesmo pé da ministra.

Sobra o novo secretário de Estado António Lacerda Sales. Tem a vantagem de ser médico; tem a desvantagem de ser ortopedista. Desvantagem, porquê? Porque há uma especialidade mais qualificada do que a ortopedia para planear, gerir e monitorizar sistemas de saúde e definir políticas de saúde: chama-se saúde pública [6, 7]. Mas a verdade é que o ministro que antecedeu Marta Temido era médico de saúde pública e deu no que deu [8], de modo que vamos dar o benefício da dúvida ao ortopedista…

Falta então falar no objecto do dia; hoje, o cachorro quente.

Em primeiro lugar, porque não é um alimento particularmente saudável [9]. Mas, como muitas vezes já tem acontecido neste espaço [10], quero destacar uma outra relação inesperada entre cachorros quentes e saúde.

Quando uma criança se engasga, o culpado pode bem ser um cachorro quente. A Escola Bloomberg de Saúde Pública do Hospital Johns Hopkins, nos EUA, observou que um cachorro quente é um perigo de asfixia, para bebés e crianças pequenas, maior do que uvas, nozes e doces. A razão: porque o seu tamanho, forma e consistência tornam um pedaço de cachorro quente a rolha perfeita para a garganta duma criança.

Já em 2010, os pediatras norte-americanos propuseram a inclusão de avisos nos rótulos dos alimentos relativos ao perigo de engasgamento e asfixia. Outra ideia surgida foi que os vendedores alterem as suas receitas, de modo que os cachorros quentes se decomponham em pedacinhos mais pequenos quando uma criança os trinca.