Por Gustavo Martins-Coelho


Esta semana, não vi notícias que justificassem um comentário neste espaço, mas também não me sinto com muita vontade de regressar ao tema das medicinas pré-científicas — ou alternativas, como são comummente chamadas —, apesar do muito que há ainda por dizer. Portanto, como nem sempre me sobra tempo para falar do objecto do dia, hoje vou falar de vários, para compensar.

Continuando na senda alimentar, depois do cachorro quente [1], hoje vamos falar do queijo americano.

O queijo americano é talvez o mais icónico dos alimentos processados e representa, para algumas pessoas, tudo o que há de errado na forma como comemos hoje em dia: demasiados aditivos, sódio escondido, sabor insípido e cor suspeita.

O processamento alimentar foi desenvolvido, na verdade, para tornar a comida mais segura. O leite é pasteurizado para matar organismos patogénicos; e enlatar ou congelar alimentos como a carne, a fruta e os vegetais fá-los durar mais tempo. Mas a indústria alimentar levou o processamento muito para além destes objectivos iniciais. Frequentemente, para prolongar a vida útil dos alimentos, os fabricantes acrescentam-lhes gordura, açúcar e sal e adicionam intensificadores de sabor, emulsificantes e outras substâncias químicas — pegando em alimentos que poderiam ser saudáveis e transformando-os em coisas muito menos amigas da saúde.

De acordo com um estudo de 2016, mais de metade das calorias na dieta norte-americana média provêm dos chamados alimentos ultra-processados: qualquer coisa desde massas instantâneas até bolos feitos a partir de misturas preparadas, passando por carnes processadas. Não conheço dados em relação à Europa e a Portugal, mas sinto alguma curiosidade, sobretudo porque nós tendemos a seguir os norte-americanos, só que com alguns anos de atraso.

Seja como for, estes alimentos ultraprocessados levam ao consumo em excesso e contêm açúcar escondido, pelo que são candidatos muito fortes a responsáveis pela epidemia de obesidade, diabetes e outras complicações de saúde mais graves que se vai observando nos EUA e um pouco por todo o mundo ocidental.

Junte-se a isto as bebidas açucaradas, o segundo objecto do dia para hoje.

A cadeia de lojas 7-Eleven introduziu, nos anos oitenta do século passado, uma linha de bebidas denominada Big Gulp, que, em Português, significa, literalmente, «grande trago», ou «grande golada», e que iniciou a obsessão norte-americana com os copos de refrigerantes do tamanho de baldes. Como de costume, a moda demorou alguns anos a chegar a Portugal, mas, cortesia das cadeias de comida rápida, está cá em força; e agora já não basta beber um copo enorme: pode-se voltar a encher as vezes que se quiser [2].

Refrigerantes em demasia podem dissolver o esmalte dos dentes e fazer ganhar peso de forma exagerada, aumentando o risco de doenças do coração e diabetes.

Em Nova Iorque, o presidente da câmara Michael R. Bloomberg tentou, em 2012, limitar a venda de bebidas com mais de meio litro, mas os tribunais não deixaram. Em 2014, na Califórnia, foi aprovado um imposto sobre as bebidas açucaradas. Cinco meses após a entrada em vigor do imposto, os cidadãos de menores recursos económicos tinham invertido a tendência observada em cidades vizinhas e reduzido o seu consumo de bebidas açucaradas em 21%.

Por cá, um imposto semelhante foi introduzido em 2017, com resultados igualmente positivos [3].