Por Gustavo Martins-Coelho


Diz que há falta de pediatras no Hospital Garcia de Orta [1]. Ou melhor, diz que a Ministra resolveu o problema da falta de pediatras no Garcia de Orta.

Vamos lá ver: as primeiras notícias sobre o encerramento da urgência (e não «urgências», pelo amor de Deus!) — da urgência pediátrica do Hospital Garcia de Orta datam de há precisamente um mês [2]. Seria de esperar que, no espaço de um mês, o Ministério da Saúde tivesse tirado um coelho qualquer da cartola e resolvido o problema, não? Nem que fosse a pagar quinhentos euros à hora a qualquer pediatra que aceitasse fazer umas noites no Hospital Garcia de Orta (lembra-se o leitor de quando a Ministra da Saúde afirmou que pagaria quinhentos euros à hora a um anestesista que aceitasse ficar de serviço na Maternidade Alfredo da Costa [3]? Está quase a fazer um ano, esse despautério…)!

Bem, o Ministério tirou um coelho da cartola, tirou, e a nós deu-nos foi uma chapelada: em vez de encontrar pediatras para a urgência do Garcia de Orta, fechou a urgência por falta de pediatras [1]. É uma forma de resolver o problema, de facto: se não houver hospitais, não há falta de médicos…

O problema nem é só em Almada. Há coisa de um mês, a TVI noticiava também a ausência de pediatra na urgência do Hospital de Chaves, durante a noite [4].

Enfim, estamos a entrever, finalmente, o resultado de trinta anos de péssimas políticas de gestão da população médica deste país. É um absoluto desastre, que, parafraseando o célebre primeiro-ministro que guiou o Reino Unido durante a II Guerra Mundial, só se resolve com muito sangue, suor e lágrimas.

Mas tudo começa com o Governo a perceber exactamente a multiplicidade de causas do problema que tem em mãos — porque, nesta altura do campeonato, o Governo nem isso sabe.

O estado de coisas é tão triste que mais vale passar ao objecto do dia, que, para hoje, é a água engarrafada.

Beber água é uma forma saudável de hidratar o nosso corpo, muito preferível às bebidas açucaradas, nomeadamente os refrigerantes, de que falei na crónica passada [5].

Em Portugal, à semelhança do que se passa noutros países, as vendas de água engarrafada crescem continuamente, apesar de se poder aceder à água da torneira por um preço muito inferior. Em 2010, os Portugueses beberam perto de mil milhões de litros de água engarrafada, quase o dobro do que consumiram dez anos antes [6].

Uma das razões é que as pessoas não confiam na qualidade da água da rede pública. Muitas vezes não gostam do sabor. Mas o sabor, normalmente, significa que está bem desinfectada. Não saber a desinfectante é que preocupante! Aliás, sabe qual é a concentração máxima de desinfectante que pode haver na água? É aquela a partir da qual as pessoas se começam a queixar do sabor, porque, em termos de riscos para a saúde, não há.

O mesmo é verdade para a turvação. As pessoas também desconfiam da água turva, mas, mais uma vez, não há riscos para a saúde, se a água não for cristalinamente transparente…

Aliás, alguém disse — e eu concordo — que é um triste sinal da sociedade em que vivemos, que um bem essencial à vida, como é a água, tenha sido transformado num produto transaccionável e de marca. Mas, filosofia política à parte, as garrafas de água são um problema. Mesmo com a reciclagem, a maior parte das garrafas de água acabam em aterros. O seu fabrico e transporte também deixa uma pegada de carbono considerável.

Portanto, qual o lado bom da garrafa de plástico? Se for reutilizável, é uma forma prática de levar água consigo, para beber sempre que precisar; e, em situações de desastre natural ou comprometimento do fornecimento, a água engarrafada pode ser a única alternativa de acesso a água potável.