Por Gustavo Martins-Coelho


Volta e meia, alguém diz ou escreve que os médicos ganham muito dinheiro. Mas será mesmo assim?

Vou falar um pouco da minha experiência.

Em Portugal, falar de dinheiro é quase pecado. Perguntar a alguém quanto ganha é considerado indelicado. No entanto, uma parte não despicienda dos salários são públicos, visto que as tabelas salariais da função pública são, efectivamente, públicas.

Sendo eu funcionário público, o valor do meu salário é o tabelado para a minha categoria profissional, sendo por isso do conhecimento público.

Recentemente, conheci o caso duma pessoa que ganha, actualmente, o salário mínimo — €635.

Na sua visão, alguém que ganha quase três vezes mais do que ela, como é o meu caso, ganha muito dinheiro. Mas é mesmo assim? Não há diferenças, entre nós, que justifiquem essa diferença salarial?

Há, sim!

Comecemos pelas qualificações.

Essa pessoa é da minha idade e tem o ensino obrigatório, que, no meu tempo, era o nono ano. Portanto, estudou nove anos.

Eu estudei mais três anos no secundário e seis na faculdade — dezoito anos, no total.

A dita pessoa fez uma formação de seis meses, antes de começar a trabalhar, recebendo uma pequena comparticipação do Instituto do Emprego e Formação Profissional.

Eu fiz cinco anos de internato médico, até me tornar especialista e poder entrar na carreira médica do Serviço Nacional de Saúde.

Resumindo: a pessoa em causa tem nove anos e meio de formação; eu tenho 23. Se aplicarmos uma regra de três simples, só a diferença em termos de formação justificaria que eu ganhasse €1537 por mês.

Mas, além da duração da formação, há ainda a intensidade da formação. A pessoa de quem tenho falado acabou o nono ano com média de 3; eu acabei com média de 5; e acabei o secundário com média de 20. Esta diferença de rendimento escolar resulta, em grande parte, duma diferença no nível de esforço académico, o qual deve também ser recompensado.

Mantendo a regras de três simples e multiplicando este factor de ponderação qualitativo pela duração da formação, o salário que eu deveria auferir é €2562.

Mas não basta falar das qualificações; há que falar também das diferentes características dos empregos de cada um.

Falemos, concretamente, do diferente nível de complexidade e responsabilidade das duas profissões que nós desempenhamos. Mais complexidade e responsabilidade devem reflectir-se em mais salário — digo eu. Este é um ponto mais subjectivo, mas creio que não estou a exagerar, se disser que o nível de complexidade e responsabilidade dum acto médico é três ou quatro vezes maior do que o dum registo de caixa num supermercado (que é a profissão da pessoa de quem tenho estado a falar). Aplicando este factor de ponderação às contas que já tinha feito, resulta que um médico deveria ganhar mais de €7000.

Nem no topo da carreira isso acontece; e já nem vou discutir se esta diferença deveria ser antes ou depois de impostos…

Mas vou concluir, recomendando que pensem duas vezes antes de falar, todas as pessoas que acusam os médicos de ganhar muito dinheiro.

Dito isto, vamos falar do objecto do dia, que hoje é o microchip.

Os circuitos integrados em semicondutores são uma parte essencial dos computadores, telemóveis e numerosos outros dispositivos do mundo moderno. O microchip tornou possível analisar bases de dados extremamente grandes — aquilo que se chama comummente big data — um processo que teria sido impossível, ou muito mais demorado, há apenas uma geração. Este tipo de análise fornece aos profissionais de saúde pública informação estatística que permite tomar decisões informadas mais rapidamente. De facto, o microchip e a tecnologia digital que ele suporta levaram a um novo campo profissional: a informática de saúde pública. Os seus profissionais estudam a aplicação das tecnologias digitais de informação na detecção de padrões, tendências e associações que permitam identificar, gerir e prevenir doenças.